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Conceitos de Saúde e Doença em “Entre a Terra e o Céu” 

Texto de Gilson Freire

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Para compreender os conceitos de saúde e doença propostos por André Luiz, é necessário partir de uma distinção essencial. As enfermidades humanas podem ser classificadas em dois grandes grupos: aquelas que vêm de fora e aquelas que se originam no interior do próprio indivíduo. Em outras palavras, existem doenças exógenas e doenças endógenas.

Chamamos de exógenas as doenças que têm origem no meio externo. O termo vem do radical exo, que significa exterior, e gen, origem, indicando tudo aquilo que provém de fora do organismo. Já as doenças endógenas têm origem interna. O radical endo remete ao interior, e nos permite compreender que essas enfermidades nascem no próprio indivíduo. Essa distinção, embora simples à primeira vista, exige um aprofundamento maior para que possamos compreender suas implicações.

Para avançarmos, é necessário considerar um segundo conceito fundamental: a própria natureza do ser humano. Segundo a doutrina espírita, o ser humano não pode ser entendido apenas como um corpo físico, como um conjunto de órgãos ou uma estrutura biológica isolada. Ele é constituído por três dimensões que se interligam e se complementam: o corpo físico, o perispírito e o espírito.

O corpo físico representa a estrutura material. O perispírito, por sua vez, constitui um corpo dinâmico, formado por uma substância ainda não reconhecida pela ciência tradicional, responsável por integrar matéria e consciência. E, acima dessas duas instâncias, encontramos o espírito, que é o princípio inteligente, a entidade diretora do ser, responsável por orientar e dar sentido ao funcionamento do conjunto.

Essas três dimensões não existem de forma isolada. Elas se encontram profundamente integradas, funcionando como uma unidade. Para ilustrar essa estrutura, André Luiz utiliza uma comparação bastante elucidativa: a da carruagem. A carruagem representa o corpo físico; o cavalo simboliza a força vital que impulsiona o sistema; e o condutor representa o espírito, responsável pela direção.

Sem o condutor, não há orientação. Sem o cavalo, não há movimento. E sem a carruagem, não há expressão material. Essa analogia nos conduz a um ponto essencial: o corpo físico não é o campo das causas, mas o campo dos efeitos. Ele responde a processos mais profundos, que se originam nas dimensões energética e espiritual do ser.

Classificação das Enfermidades

Um dos problemas que esse modelo soluciona é exatamente a compreensão das enfermidades. Retomando a primeira classificação apresentada, as doenças podem ser divididas em dois grandes grupos: aquelas que vêm de fora e aquelas que vêm de dentro.

As doenças que vêm de fora são de fácil compreensão. Dizem respeito a fatores externos que ultrapassam o limiar de tolerância da nossa biologia e podem comprometer o funcionamento do organismo. São fatores físicos diversos, como frio extremo ou calor excessivo. Podemos sofrer sérios danos ao nos expormos ao frio intenso sem proteção.

Além disso, há fatores que chegam ao organismo pela via respiratória ou pela alimentação. Muitos deles são danosos ao funcionamento biológico, como a poluição atmosférica e alimentos impróprios, que prejudicam o equilíbrio bioquímico.

Ingerimos substâncias tóxicas e podemos adoecer, ou até morrer, dependendo da intensidade da exposição. Também podemos sofrer um acidente automobilístico, que representa um fator exógeno capaz de gerar dor, sofrimento e comprometimento do organismo. Nesse sentido, a doença de origem externa é de fácil entendimento, e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitá-la.

No entanto, muitos desses agentes externos são incorporados por decisão própria. Fumamos, bebemos, alimentamo-nos de forma inadequada, seja por excesso ou por carência. Assim, surgem doenças nutricionais, tanto por hipernutrição quanto por desnutrição. Somam-se a isso as enfermidades decorrentes de hábitos higiênicos inadequados, da ausência de saneamento básico e de desequilíbrios ambientais. As zoonoses são um exemplo desses processos.

Todos esses fenômenos configuram doenças exógenas, que interferem diretamente no funcionamento orgânico. Em alguns casos, esse processo ocorre de forma gradual, como quando mantemos hábitos alimentares inadequados ao longo do tempo, comprometendo progressivamente o organismo.

Muitas dessas enfermidades estão sob nossa responsabilidade evitar. Outras, no entanto, fogem ao nosso controle. Não temos como evitar completamente, por exemplo, a presença de agrotóxicos nos alimentos ou a poluição atmosférica. Trata-se de formas de intoxicação crônica que, pouco a pouco, afetam a saúde.

Ainda assim, devemos fazer todo o possível para reduzir a exposição aos fatores exógenos que comprometem a vida. Aqueles que conseguem preservar o organismo dentro desses limites e completam sua existência no tempo previsto são chamados de “completistas”. Segundo a tradição, são raros, e sua partida é celebrada no plano espiritual.

A maioria das pessoas, entretanto, devido aos desgastes impostos ao próprio corpo, acaba partindo antes do tempo previsto. Em muitos casos, isso ocorre de forma inconsciente. Hábitos como o tabagismo, por exemplo, comprometem progressivamente o organismo, reduzindo o tempo de vida. Por isso, fala-se em um processo de autolesão inconsciente.

O ideal seria que todos alcançássemos essa condição de completude, preservando ao máximo o equilíbrio do organismo ao longo da existência.

Entretanto, as doenças exógenas representam apenas uma parcela menor das enfermidades humanas. Segundo André Luiz, cerca de 90% das doenças têm origem no próprio indivíduo, sendo, portanto, endógenas.

Isso significa que a maior parte das enfermidades se desenvolve a partir de processos internos. Nessa classificação incluem-se os processos inflamatórios, degenerativos, as doenças hipertróficas, os tumores e também as enfermidades infectocontagiosas.

O Mecanismo do Adoecimento

Certamente, surge a pergunta: a doença infectocontagiosa não vem de bactérias e vírus — os chamados agentes patógenos — que estão no ambiente e contaminam o homem por meio do contágio? À primeira vista, pode parecer contraditório classificar também essas enfermidades como endógenas. No entanto, veremos que, de fato, assim o é. Para isso, é necessário compreender, primeiro, o que significa uma doença que se origina no interior do próprio indivíduo.

Toda enfermidade física natural endógena, ou seja, aquela que não tem origem externa, decorre de um manancial dinâmico mórbido encistado no campo perespiritual. Em outras palavras, toda doença física advém de um campo perespiritual deletério, uma região perturbada do perispírito que se desalinha e desagrega suas linhas de força. Trata-se de um campo magnético — ou biomagnético — em desequilíbrio, que se perturba e forma aquilo que André Luiz denomina “nicho fluídico”.

Esse nicho fluídico pode ser compreendido como uma região “lamacenta” no perispírito, incrustada em suas malhas. Podemos imaginá-lo como uma nódua, uma mancha, uma área de desorganização energética situada em pontos específicos do corpo perespiritual. Trata-se, portanto, de um campo dinâmico perturbado, que passa a influenciar diretamente o funcionamento das estruturas físicas correspondentes.

Quando essa nódua se estabelece, ela interfere nas células que estão sob sua influência. As células passam a funcionar de maneira inadequada, adoecem e, como consequência, surge a enfermidade física. Assim, quando um órgão adoece, isso ocorre porque foi irradiado por uma perturbação perespiritual — um nicho fluídico presente no perispírito.

Utiliza-se também o termo “miasma” para descrever esse campo deletério. Embora não seja uma palavra elegante, ela expressa bem a ideia de uma região impregnada de desequilíbrio energético, capaz de comprometer o funcionamento celular. Esse é o mecanismo endógeno do adoecimento: a célula física adoece porque foi irradiada por um campo perespirítico perturbado.

Com isso, compreendemos que a doença não tem origem na célula em si. A célula não adoece por acaso, nem por uma questão de sorte. Ela responde a uma influência prévia. Antes de um órgão físico doente, há sempre um campo perespirítico desalinhado.

Uma vez estabelecido esse entendimento, surge uma questão fundamental: de onde vem a perturbação do perispírito? Essa perturbação se origina no espírito, que é o elemento diretor. É o espírito que manipula as energias que estruturam e dinamizam o perispírito. Nesse sentido, o ser espiritual funciona como um verdadeiro dínamo gerador de energias, capaz de produzir tanto energias equilibradas quanto desequilibradas.

Quando esse dínamo gera energias perturbadas, forma-se o nicho fluídico no perispírito. Assim, estabelece-se a cadeia do adoecimento: o espírito adoece o perispírito, e o perispírito adoece o corpo físico. Essa é a via interna da enfermidade — um processo que se inicia nos níveis mais profundos da consciência e se manifesta, posteriormente, na matéria.

Há, porém, um segundo aspecto essencial a considerar. Quando o nicho fluídico influencia uma região orgânica, ele não apenas irradia suas perturbações, mas também é absorvido pelas células. Ou seja, as células físicas passam a incorporar esse material deletério.

Isso significa que, ao adoecer, o corpo está realizando um processo de transferência dessas impurezas do perispírito para a matéria. Em outras palavras, ao adoecer o corpo, estamos promovendo uma limpeza do perispírito.

Esse processo é denominado “drenagem”: a eliminação de impurezas perespirituais por meio da enfermidade física. Assim, toda enfermidade física endógena — que constitui a maioria — representa um processo de limpeza, de evacuação de energias deletérias acumuladas no perispírito.

Esse conceito atribui uma nova função à doença. A enfermidade deixa de ser apenas um problema e passa a ter um papel dentro do equilíbrio do ser. É o que se denomina “função biológica da dor”. A dor física não representa um fracasso biológico, mas um processo necessário de reequilíbrio e cura — tanto do perispírito quanto do espírito.

Essa compreensão transforma profundamente a forma de enxergar o adoecimento. A doença deixa de ser um fenômeno aleatório ou um erro da biologia e passa a ser entendida como um processo de reorganização do ser.

Por isso, na obra Entre a Terra e o Céu, André Luiz compara o corpo físico a um “filtro milagroso”, um “carvão divino” que retém, em suas malhas, as impurezas trazidas no perispírito, promovendo sua depuração.

A Função Biológica da Dor e o Corpo como Filtro

“A carne, de certo modo, em muitas circunstâncias não é apenas um vaso divino para o crescimento de nossas potencialidades, mas também uma espécie de carvão milagroso, absorvendo-nos os tóxicos e resíduos de sombra que trazemos no corpo substancial.”

— André Luiz, Entre a Terra e o Céu, cap. 10

Olha que frase fundamental. Essa frase é do livro Entre a Terra e o Céu. Vocês vão encontrá-la lá. E ela está quase que exatamente nessas palavras. Portanto, o corpo físico funciona à maneira de um filtro, aquele filtro doméstico, que filtra as impurezas da água e que de repente você o tira, ele está todo enlamaçado de impurezas porque ele limpou a água. Ele precisa até ser trocado em certas ocasiões. Tão sujo ele está. Por quê? Porque ele é de valor secundário. O que importa é a nossa saúde, é a água limpa que tomamos. O filtro então ele se danifica, mas ele vai cumprir o seu papel que é purificar a água. Então a carne exerce o mesmo papel de um filtro. Ela por vezes se perturba de tal ponto em que inclusive ela tem que ser jogada fora. Nós vamos para o túmulo com determinadas doenças gravíssimas por vezes, porque as impurezas que trazemos no nosso perespírito é de tal monta que o filtro carnal não resiste, mas ele cumpre o papel de purificar o nosso perespírito, porque a natureza sabe que a veste orgânica, o corpo orgânico, é uma veste transitória que nós vestimos no decurso de um tempo e depois tem que ser jogada fora através do fenômeno da desencarnação. E a natureza nos dá outra veste, aquela que subsiste à morte e depois outra veste carnal ao reencarnarmos. Então, o corpo físico é completamente substituível, completamente transitório.

Então a natureza utiliza o corpo físico para manter a saúde do ser, do espírito e do perespírito, porque isso sim é de muito mais valor para a vida, porque isso subsiste à morte. Então, é extraordinário este conceito de filtro, de carvão milagroso. É o mesmo conceito que existia na doutrina espírita lá nos primódios, nas primeiras décadas do século XX, o corpo físico era comparado ao mata-borrão. Os professores sabem o que é mata-borrão. A gente pelo menos conhece de gravuras. Quando as cartas eram escritas à pena, havia por vezes um excesso de tinta e aí tinha um instrumento feito de um papel muito poroso que era passado sob a escrita para absorver o excesso de tinta e não manchar a carta. Ele matava as borras, era o mata-borrão. Então é uma imagem também que perdurou durante certo tempo na doutrina espírita que se dizia que o corpo físico é o mata-borrão da alma. Absorve borras. A palavra é feia. As borras que estão enlameando o perespírito, estão sujando o perespírito. Mas a imagem de André Luiz é uma imagem muito mais interessante para os nossos dias, porque ninguém sabe o que é mata-borrão mais. É a imagem do filtro de carvão, que também tem a capacidade adstringente de absorver, de reter em si as impurezas, porque os nossos filtros também são feitos de carvão.

Então isso é extraordinário. Quando nós nos deparamos com esses conceitos, isso é uma luz na nossa compreensão do fenômeno da doença, porque isso vai nos favorecer a aceitarmos de uma maneira muito mais condigna as nossas enfermidades, porque nós sabemos que elas estão cumprindo um papel na nossa evolução espiritual e por vezes são necessárias para a nossa felicidade futura, mas a gente só enxerga o corpo, não vê nada além do nosso corpo físico. E nós nos revoltamos, nos apenamos, esperneamos, choramos e nos indignamos com Deus e achamos que estamos doentes, enquanto que na verdade estamos num processo de tratamento divino para nos mantermos no máximo equilíbrio possível. Então é um processo divino e uma vez que nós o compreendemos, nós podemos nos valer dessa compreensão para enfrentarmos as nossas enfermidades de uma maneira mais condizente com a nossa realidade.

Não estamos dizendo: não busquemos tratar as nossas enfermidades físicas porque elas estão curando o nosso perespírito. Não é bem assim. A carruagem, a casa orgânica precisa ser amparada para que ela não sucumba. Então nós comparamos a enfermidade a uma enxurrada que sai de uma casa, a um esgoto que sai de uma casa e se essa enxurrada for violenta, ela vai derrubar a casa. Então é da nossa competência escorar a casa, ajudar a casa a se libertar daquele material da forma mais amena possível. Então essa é a função afinal da medicina, de cuidar do corpo, de dar recursos ao corpo físico para que o processo da enfermidade possa cumprir o seu papel. Então, amigos, é por isso que há um ditado interessante na homeopatia, que uns remetem até para Hipócrates ou para Hahnemann, que diz que não há doenças, há doentes. Então, antes de um órgão enfermo, há um processo enfermiço do indivíduo. O órgão é apenas o resultado final desse processo, que a enfermidade mesmo é da competência do indivíduo. Então, afinal de contas, nós é que adoecemos o nosso corpo. É por isso que dizemos que a enfermidade vem de dentro de nós mesmos e que nós somos os responsáveis pelas nossas enfermidades.

As Doenças Infectocontagiosas e os Urubus

Antes de prosseguirmos, é necessário retomar a questão das doenças infectocontagiosas. À primeira vista, parece não haver nada mais correto, do ponto de vista médico, do que afirmar que essas enfermidades decorrem da ação de patógenos — agentes da natureza que invadem o organismo e provocam o adoecimento. Assim, se alguém contrai uma gripe, atribui-se a causa a um vírus; se desenvolve uma pneumonia, considera-se que bactérias estão atuando diretamente sobre o pulmão. Nesse raciocínio, o agente biológico é visto como o vilão do processo.

Entretanto, essa interpretação é ampliada quando se considera que os patógenos não seriam a causa primária da enfermidade, mas elementos que encontram condições favoráveis para se desenvolver. Nesse sentido, eles são atraídos por um estado prévio do organismo, um manancial mórbido que necessita ser degradado e eliminado.

Por essa razão, bactérias e vírus são comparados a agentes “varredores”. São descritos como “lixeiros” ou “abutres”, que atuam sobre matéria orgânica em decomposição. Nessa analogia, representam elementos da natureza que participam de um processo de limpeza, consumindo aquilo que já se encontra em estado de deterioração.

No organismo, esse processo ocorre quando o nicho fluídico — anteriormente formado no perispírito — é projetado sobre as células físicas. A ação dos microrganismos contribui para a transformação desse material, que pode ser eliminado sob a forma de secreções, como o pus. Assim, a doença infectocontagiosa passa a ser compreendida como um fenômeno predominantemente endógeno, e não exclusivamente exógeno.

Nesse contexto, afirma-se que não há apenas contágio, mas também “convite”. O organismo cria um campo predisposto, que favorece a presença e o desenvolvimento do agente patogênico responsável pela degradação desse conteúdo mórbido encistado no perispírito. Esse entendimento encontra respaldo na obra Entre a Terra e o Céu.

Essa mesma ideia é abordada também em Evolução em Dois Mundos, onde se afirma que as doenças infectocontagiosas podem ter causas espirituais. Excetuando-se os casos decorrentes de maus hábitos higiênicos, as enfermidades infecciosas naturais estariam cumprindo uma função dentro do equilíbrio do ser. Nesses casos, a doença seria considerada exógena apenas quando artificialmente favorecida por condições externas inadequadas.

De modo geral, as infecções que surgem espontaneamente podem ser compreendidas como processos de drenagem das energias perespirituais, contribuindo para a limpeza do perispírito. Por isso, esses agentes são novamente comparados a “varredores” ou “abutres”, que atuam na natureza removendo matéria em decomposição.

Para ilustrar esse mecanismo, apresenta-se um exemplo. Supondo que um animal morto permaneça dentro de um ambiente fechado, é provável que urubus se aproximem do local de forma intensa. Para quem observa de fora, pode parecer que os urubus estão atacando a casa. No entanto, a verdadeira causa não são as aves, mas aquilo que está dentro — o material em decomposição que as atrai.

Nesse exemplo, o “bicho morto” representa a matéria fluídica negativa presente no perispírito. São essas condições internas que atraem os agentes biológicos e favorecem o seu desenvolvimento no organismo.

Ainda assim, é importante destacar que o tratamento médico permanece necessário. Os patógenos podem ultrapassar o limite de sua função e comprometer gravemente o organismo. Portanto, é legítimo e necessário utilizar todos os recursos disponíveis para preservar a vida.

Essa compreensão não constitui uma apologia da doença ou da dor. Trata-se apenas de uma tentativa de compreendê-las de forma mais ampla, permitindo uma relação mais consciente com o processo de adoecimento, sem excluir o uso dos tratamentos convencionais.

O Caso de Júlio

Na obra Entre a Terra e o Céu, encontramos a história de um jovem chamado Júlio. Ao longo de suas existências, recebe outros nomes, mas será aqui referido simplesmente como Júlio.

Durante a época da Guerra do Paraguai, em decorrência de uma profunda frustração amorosa, tenta tirar a própria vida ingerindo uma substância cáustica. Essa substância provoca queimaduras na região da glote e da garganta, causando intenso sofrimento, mas não o leva à morte. Em seguida, lança-se em um rio, buscando o afogamento.

Nessas condições, Júlio se apresenta no mundo espiritual em estado de grande desequilíbrio, portando intensos sofrimentos e dificuldades de prosseguir sua trajetória. Traz consigo as consequências dos atos cometidos, que se fixaram em seu perispírito. Nessa região, mantém uma espécie de ferida, uma chaga perespiritual que o aflige profundamente.

Posteriormente, é conduzido a um novo processo reencarnatório. Aos oito anos de idade, durante um passeio à beira-mar, um descuido momentâneo permite que uma onda o arraste, levando-o ao desencarne por afogamento. Trata-se, nesse caso, de um evento exógeno, resultante de fatores externos incompatíveis com a resistência biológica.

Sob a perspectiva comum, esse episódio é visto como um acidente trágico. No entanto, dentro de uma compreensão mais ampla, esse acontecimento está relacionado ao processo de reajuste espiritual do próprio Júlio, que havia anteriormente tentado a própria morte por meio do afogamento.

Após esse episódio, Júlio retorna ao plano espiritual em condições ligeiramente mais equilibradas, sendo acolhido por entidades que o assistem com cuidado. Ainda assim, não se encontrava plenamente restabelecido. Persistia o sofrimento na região da glote, decorrente da agressão provocada pela substância cáustica ingerida anteriormente.

Para a liberação dessas nóduas perespiríticas, torna-se necessário um novo processo reencarnatório. Em uma nova existência, aos dois anos de idade, Júlio desenvolve uma infecção grave — a difteria — vindo a desencarnar em decorrência dessa enfermidade.

Do ponto de vista biológico, a causa imediata dessa condição é atribuída ao bacilo diftérico, agente responsável pela doença. Sob uma análise superficial, esse evento poderia ser interpretado como uma ação hostil da natureza, capaz de ceifar a vida de uma criança.

No entanto, sob a ótica espiritual, a compreensão se amplia. O perispírito de Júlio, ainda marcado por desequilíbrios na região da glote, passa a irradiar essas condições sobre o corpo físico. As células, ao absorverem essas emanações, participam de um processo de limpeza.

Nesse contexto, os agentes infecciosos atuam como “varredores”, encontrando no organismo um campo propício para se desenvolver. Ao fazê-lo, contribuem para a absorção e eliminação dessas cargas deletérias.

Assim, o desencarne aos dois anos de idade, embora doloroso na perspectiva humana, representa, no plano espiritual, a conclusão de um processo de reequilíbrio. Após sucessivas experiências — um evento exógeno e um processo endógeno — Júlio alcança condições mais estáveis de existência.

Esse relato ilustra de forma clara o mecanismo do adoecimento. Muitos eventos considerados acidentais podem estar relacionados a processos de reajuste necessários ao desenvolvimento do espírito. Da mesma forma, enfermidades infecciosas podem desempenhar papel importante na depuração do perispírito.

A partir dessa compreensão, reforça-se a ideia de que a enfermidade, em grande medida, tem origem no próprio indivíduo, desenvolvendo-se a partir de condições internas que se manifestam, posteriormente, no corpo físico.

O Psiquismo como Fonte das Enfermidades

Com isso, compreende-se que a enfermidade, de fato, tem origem no interior do próprio indivíduo. Chega-se, então, a um ponto central: segundo André Luiz, na obra Entre a Terra e o Céu, a doença tem sua origem no psiquismo — entendido como o conjunto da vontade, do entendimento, dos sentimentos e dos desejos, ou seja, tudo aquilo que constitui o campo emocional e consciencial do ser.

É por meio dos pensamentos, sentimentos, desejos e ações que o indivíduo produz energias, sejam elas benéficas ou deletérias. Quando essas energias são desarmônicas, passam a atuar sobre o próprio ser, conduzindo ao adoecimento. Nesse sentido, a enfermidade tem origem no espírito, que, à semelhança do condutor da carruagem, dirige os impulsos que influenciam tanto o perispírito quanto o corpo físico.

Dessa forma, a origem da doença está associada ao mal sentir, mal pensar e mal agir. Essa trilogia constitui a base da produção de energias mórbidas que, posteriormente, repercutem no organismo.

Quando esse processo se estabelece, o dano produzido atinge primeiro aquele que o gerou. Assim como uma fonte de esgoto é a primeira a ser contaminada pelo próprio fluxo que emite, o indivíduo sofre, inicialmente, os efeitos das energias que produz. Somente depois esses efeitos podem alcançar outros.

Por essa razão, sentimentos como a maldade, a crueldade e o desequilíbrio emocional constituem fatores determinantes no adoecimento. As enfermidades naturais estão, portanto, relacionadas aos pensamentos, sentimentos e comportamentos do próprio indivíduo.

Esse ensinamento não é novo. Ele já havia sido apresentado por Jesus Cristo, ao afirmar que não é o que entra pela boca que adoece o homem, mas o que dela sai, pois isso provém do coração. Ou seja, a origem do adoecimento está nos sentimentos.

Isso não exclui a existência de enfermidades exógenas. A falta de cuidados higiênicos pode levar a contaminações por agentes externos, como verminoses ou infecções intestinais. Nesses casos, trata-se de acidentes biológicos decorrentes de fatores externos, e não da doença em seu sentido mais profundo.

A doença verdadeira, aquela que se origina no interior do ser, está relacionada ao que o indivíduo produz em termos de sentimento e pensamento. Esse princípio encontra-se claramente expresso nos ensinamentos evangélicos. Ao curar, Jesus afirmava: “vai, a tua fé te curou”, indicando que os recursos da cura estão no próprio indivíduo. E também orientava: “não peques mais, para que não te suceda algo pior”, sugerindo a relação entre comportamento e adoecimento.

É importante, então, observar que a doença está vinculada ao mal sentir, mal pensar e mal agir. Para ilustrar essa ideia, apresenta-se uma narrativa simples.

Um menino, tomado pela raiva de um colega, é incentivado pelo pai a lançar pedaços de carvão contra um lençol, imaginando que ali está o alvo de sua indignação. Ao final, ao se olhar no espelho, percebe-se completamente sujo de carvão. A lição é evidente: antes de atingir o outro, a própria pessoa se contamina.

Essa imagem demonstra que a raiva e outros sentimentos negativos afetam, em primeiro lugar, quem os produz. Por isso, é necessário vigilância sobre os próprios estados emocionais.

Na vida cotidiana, é comum que o indivíduo controle suas ações, mas mantenha sentimentos e pensamentos desarmônicos. Situações corriqueiras, como conflitos no trânsito, podem gerar irritação intensa, ainda que não se traduzam em atitudes externas. Mesmo assim, essas reações produzem efeitos no organismo, como tensão, mal-estar e desequilíbrios momentâneos.

Esses estados, quando repetidos ao longo do tempo, podem se acumular e contribuir para o surgimento de enfermidades mais complexas. Muitas vezes, o indivíduo não percebe essa relação e atribui o adoecimento a causas puramente biológicas ou aleatórias.

No entanto, compreende-se que toda enfermidade está relacionada, em algum grau, às condições internas do próprio ser. Mesmo quando não há ação externa, os pensamentos e sentimentos são suficientes para gerar impactos no organismo.

Assim, toda energia negativa produzida — ainda que não se manifeste em ação — tende a repercutir no próprio indivíduo. E, quando associada a ações, pode ainda gerar consequências adicionais, tanto para si quanto para os outros.

Diante disso, o ideal consiste em transformar o sentir, o pensar e o agir, orientando-os para o bem. O bem sentir, bem pensar e bem agir constituem o caminho para a produção de energias equilibradas.

A cura, nesse contexto, não se limita a intervenções externas. Embora tratamentos médicos, recursos terapêuticos e assistência espiritual possam auxiliar, eles atuam como suporte. A cura real depende de uma transformação interior.

Assim, compreende-se que a enfermidade surge de dentro do ser, e que a cura genuína também deve partir dessa mesma fonte.

A Cura e o Papel do Bem

É importante observar que, mesmo quando o indivíduo alcança um estado de equilíbrio — evangelizando pensamentos, sentimentos e ações — ainda assim pode permanecer sujeito aos efeitos do passado. As energias deletérias anteriormente geradas permanecem encistadas no perispírito e necessitam ser drenadas para o corpo físico.

Essa condição pode gerar uma aparente contradição. Observa-se, por vezes, pessoas de elevada conduta moral, profundamente dedicadas ao bem, vivendo enfermidades físicas, enquanto outras, com histórico de ações negativas, aparentam plena saúde. Essa situação pode levar à dúvida quanto à veracidade desses princípios.

Entretanto, a compreensão se amplia quando se considera a dimensão do tempo. Um indivíduo pode estar respondendo por ações passadas, enquanto outro compromete o próprio futuro. Se fosse possível observar o perispírito de um indivíduo em desequilíbrio, ver-se-iam as marcas dessas condições, prenunciando enfermidades que ainda se manifestarão. Por outro lado, aquele que já se encontra moralmente equilibrado pode estar apenas finalizando processos de depuração, encontrando-se em estado de cura.

A relação entre causa e efeito não se dá necessariamente de forma imediata. A semeadura é livre, mas a colheita ocorre no tempo adequado, conforme o amadurecimento de cada processo. Assim, há situações em que os efeitos de determinadas ações se manifestam apenas em existências futuras.

Essa compreensão reforça a importância da transformação interior. O pensamento, o sentimento e o desejo possuem grande poder e são capazes de gerar desequilíbrios que, mais tarde, repercutirão no organismo. Mesmo quando não se traduzem em ações externas, esses estados internos produzem efeitos reais.

Por essa razão, André Luiz afirma, na obra Entre a Terra e o Céu, que toda enfermidade tem origem no psiquismo, onde residem a vontade, o entendimento e os desejos, e de onde partem as ações humanas. Essa é a verdadeira fonte da doença e também da cura.

Sem o bem, não há saúde nem felicidade. Ainda que a medicina avance em seus recursos, se o indivíduo não se transforma, apenas mudará a forma de adoecer. Observa-se, por exemplo, o controle de determinadas enfermidades infectocontagiosas, ao mesmo tempo em que outras condições, como o câncer, tornam-se mais frequentes.

Nesse contexto, compreende-se que a doença cumpre um papel dentro do processo evolutivo. Ela persiste enquanto for necessária ao reequilíbrio do ser. Sua existência está diretamente relacionada à permanência das causas que a originam.

Dessa forma, a enfermidade pode ser compreendida como um convite ao aprendizado. Enquanto o indivíduo não modifica as causas internas que a geram, continuará sujeito aos seus efeitos.

Nesse sentido, afirma-se que o ser humano alcançará a verdadeira saúde apenas quando atingir um estado de equilíbrio moral mais elevado — a chamada saúde do espírito superior.

Ao final, destaca-se uma reflexão significativa: o indivíduo, ao compreender plenamente o papel da dor, poderá reconhecer sua função e, inclusive, agradecer por sua presença. A enfermidade, nesse entendimento, deixa de ser vista como um acaso ou um castigo e passa a ser reconhecida como parte de um processo de cura.

Embora essa perspectiva ainda seja de difícil aceitação, ela propõe uma nova forma de relação com o sofrimento: buscar os recursos necessários para o tratamento, sem revolta ou indignação, compreendendo que a doença não existe para perturbar, mas para conduzir a um estado mais elevado de equilíbrio.

Retomando o exemplo apresentado anteriormente, observa-se que, após os processos vivenciados, Júlio é recebido no plano espiritual em condições mais equilibradas. Tanto o evento exógeno quanto o processo endógeno cumpriram suas funções dentro de seu percurso de reajuste.

Essa compreensão amplia a percepção sobre os desafios da existência, permitindo reconhecer que muitos dos acontecimentos que nos atingem podem estar vinculados a necessidades mais profundas do ser.

Por fim, permanece o convite ao estudo da obra Entre a Terra e o Céu, onde esses conceitos são apresentados de forma mais detalhada.

Que essa reflexão contribua para uma compreensão mais ampla do fenômeno da doença e para o desenvolvimento de uma relação mais consciente com a própria saúde.

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Gilson Freire
Gilson Freire é médico mineiro, formado pela UFMG, em 1980, e especializado em Homeopatia pela Escuela Médica Homeopática Argentina, atividade a que se dedica até os dias atuais. É autor de várias obras literárias, nas quais funde conteúdos espíritas com as revelações de Pietro Ubaldi.

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